Posts tagged Dalton Trevisan

Posts tagged Dalton Trevisan

Mesmo não sendo muito simpático aos holofotes da fama, Dalton Trevisan não pôde evitar o reconhecimento de sua literatura. Este ano, justamente quando acaba de completar 87 anos, o Vampiro de Curitiba recebeu os prêmios literários Camões (por “dedicação ao fazer literário”) e Machado de Assis (pelo “conjunto da obra”), consagrando-se como um dos principais autores do país. E homenagens não faltarão.
Na Biblioteca Pública do Paraná, a mostra fotográfica A Eterna Solidão do Vampiro reúne imagens de Nego Miranda que revelam os cenários por onde os personagens de Trevisan circulam, como ruas, praças, fachadas de casas, prédios e outras construções da capital paranaense. “Minha ideia não foi lançar luz sobre a misteriosa literatura de Dalton, mas sim realçar esse ar sombrio. Quis reforçar essa coisa densa. Por isso, fiz algumas fotos às 4 da manhã, por exemplo. Não é aquela Curitiba do Bondinho, é uma Curitiba pesada”, diz Miranda, explicando o seu projeto. Além da exposição, a BPP também dedicou a Trevisan as 32 páginas da edição de junho do jornal Cândido, com ensaios, reportagens, depoimentos, fotografias e ilustrações sobre sua obra.


E a partir de hoje, no Museu da Imagem e do Som (MIS), a Mostra Dalton Trevisan de Cinema, que exibe filmes de longa e curta-metragem baseados em contos do escritor curitibano. Todas as produções escolhidas se restringem a pouquíssimos filmes autorizados por Trevisan, que exigia fidelidade absoluta a seus escritos, não permitindo adaptações. Todas as projeções serão apresentadas por especialistas da área e têm entrada gratuita.
—
A Eterna Solidão do Vampiro
Quando: de 14 de junho a 27 de julho
Onde: Hall de entrada da Biblioteca Pública do Paraná - R. Cândido Lopes, 133 - Curitiba/PR
Entrada franca.
—————————
Mostra Dalton Trevisan de Cinema
Quando: de 18 a 20 de junho (sessões sempre às 19h30)
Onde: Auditório Brasílio Itiberê - R. Cruz Machado, 138 – Curitiba/PR
Entrada franca.
Programação completa aqui.

Na Boca Maldita, coração da capital paranaense, está o Edifício Tijucas, um dos mais tradicionais e movimentados da cidade. Entre residências e estabelecimentos comerciais, o prédio abriga histórias presentes na memória de seus moradores mais antigos e na de todos os curitibanos que por ali passam diariamente. Quem, afinal, nunca ouviu falar do fantasma da mulher de vermelho que transita pelos corredores do local assustando a quem ousar cruzar seu caminho? Nossos entrevistados de hoje habitam o Tijucas e, pela conversa que segue, descobrimos que não poderiam estar em lugar melhor.
Fabiano Vianna e Daniel Gonçalves são os criadores da revista LAMA e os responsáveis pela republicação do zine LODO. A primeira nasceu como uma homenagem ao segundo, que na década de 50 era produzido pelo escritor Florestano Boaventura. Além dos nomes, a LAMA e a LODO tem em comum o pulp, gênero de horror, suspense e fantasia que permeia todas as histórias contadas em suas páginas. Páginas que, aliás, contam com colaborações de Dalton Trevisan e Valêncio Xavier, o vampiro e o Frankenstein de Curitiba, respectivamente. E é na linha tênue que separa ficção e realidade que nosso bate papo com os criadores da LAMA e do LODO se dá. Cuidado onde pisa:
INVENTA - Como nasceu a ideia da LAMA?
FABIANO VIANNA - Primeiramente o projeto era de ser uma revista apenas de fotonovela. Porque eu trabalho com fotonovelas desde 2006 no site Crepúsculo. O que não supria minha necessidade carnal de ver algo em formato impresso. Sempre fui um colecionador de livros e revistas e cultivo até hoje o prazer de ler literatura em formato de livro impresso. O prazer tátil de um livro. Mas quando eu, Daniel Gonçalves, Luiz Felipe Leprevost e Milena Buzzetti começamos a reunir material e pesquisar gráficas, formatos etc., pensei que poderia aproveitar e convidar amigos escritores que eu conhecia para participar. E então comecei a receber contos ótimos de pessoas como Ana Paula Maia, Luiz Felipe Leprevost, Martha Argel, Daniel Gonçalves, Otávio Linhares, Giulia Moon, Assionara Souza, Gisele Pacola, Vanessa Rodrigues e Eduardo Capistrano. Juntaram-se a eles, Rodriane DL, Simone Campos, Diego Gianni, Índigo, Estus Daheri e Emanuel Marques (escritor português). Pessoas que eu já admirava o trabalho. A maioria deles já caminhava pelas obscuras trilhas do pulp. Então, de revista de fotonovela, a LAMA foi transformando-se em uma revista com uma abrangência maior de temas como eram as revistas pulp dos anos 30 e 40. Este “guarda-chuva” temático composto por ficção científica, horror, suspense e fantasia.
Outra missão da LAMA é revelar escritores novos que andam produzindo literatura de primeiro mundo. Queremos consolidar os gêneros policiais, terror, suspense, ficção científica e fantasia no Brasil. Isso não é coisa só de gringo mais.
IVT – E da LODO?
FV - A LODO na verdade é uma revista antiga, da década de 50, que nos inspirou a criar a LAMA. Publicada pelo Florestano Boaventura, escritor que mora no bairro do Uberaba, em Curitiba. Ele publicava estas revistinhas, formato cordel, desde 1948, com histórias pulp, de horror e fantásticas. Mas por algum motivo parou de fazê-las na década de 70. Muita gente nunca ouviu falar. Resolvemos então prestar uma homenagem criando a LAMA. Inclusive o nome tem a ver, e até o número de letras. Daí quando ficou sabendo da LAMA, Florestano entrou em contato conosco e disse que se quiséssemos, poderíamos republicar algum material das LODOs antigas e nos cedeu contos e revistinhas. Propusemos a ele então de fazermos um novo design e novas ilustrações e lançar a partir do número que ele havia parado, número 127, junto com a LAMA #2. E ele topou. Daí o Daniel Gonçalves ilustrou e diagramou as histórias que reeditamos nesta LODO nº 127. O nosso parceiro lamacento Otávio Linhares também teve um papel importantíssimo neste processo, porque foi ele que primeiramente teve contato com o Florestano e passou também a escrever novas histórias para publicarmos na edição.

IVT - A linha editorial de vocês é a literatura pulp, um gênero praticamente desaparecido e sempre desvalorizado no Brasil. Qual a importância que vocês veem em revivê-lo?
DANIEL GONÇALVES - Reviver a linguagem pulp, é resgatar o espírito de uma literatura livre, despretensiosa e pujante, além de reverenciar verdadeiros gênios da literatura que fizeram parte desse contexto, ou que foram fortemente influenciados pelas revistas pulp. Tudo isso, sem mencionar a fantástica estética vintage, que faz da linguagem pulp uma referência igualmente forte dentro das artes visuais.
FV - Na verdade, acho que o pulp continua vivíssimo, está melhor do que nunca. O que aconteceu foi que as histórias deste gênero, antes publicadas em revistas de papel feito da polpa, migraram para os livros, quadrinhos e depois para o cinema. Tantas histórias pulp antigas e quadrinhos atuais transformados em filmes são a prova que o pulp está mais vivo do que nunca.
IVT - No editorial da Lodo #127 o Daniel Gonçalves conta como encontrou as publicações do Florestano Boaventura escondidas, esquecidas nas prateleiras da Biblioteca Pública. Vocês acreditam que o pulp, por seu caráter popular, seja tão efêmero quanto o nascimento e a substituição de uma geração por outra?
DG - A literatura pulp pode ser considerada potencialmente efêmera. Todavia, esse é um conceito bastante relativo. A partir do momento que as histórias de um livreto criam vida no consciente de um leitor e, de alguma forma, afetam sua percepção de mundo, então para essa pessoa o pulp deixou de ser efêmero.
IVT - E sobre o processo de produção das revistas… Há colaboradores fixos? Quais os critérios para a seleção dos textos e das ilustrações? O escritor e o ilustrador dialogam entre si para a criação?
FV - Alguns colaboradores são fixos, porque fazem parte do projeto desde o início como Luiz Felipe Leprevost e Daniel Gonçalves. Além disso, nós três formamos um conselho editorial para organizar a coisa. Reunimos-nos para ler os contos que os escritores enviam, bem como para analisar as ilustrações, mais tarde, das histórias selecionadas. Nossas sessões de leitura acontecem na Confeitaria das Famílias – habitat de samambaias-polvo pré-históricas e detetives de café centrais. É lá que lemos um para os outros as histórias e selecionamos o que entra na próxima edição. Sempre devidamente acompanhados de “fumegigantes” cafés e guloseimas de outrora-familiares maravilhosas.
Procuro colocar sempre os ilustradores em contato com os escritores, encaminhando os emails de um para o outro. Em algumas vezes eles dialogam, de vez em quando, os escritores sugerem imagens. Na próxima edição da LAMA quero testar inverter o processo, pedir que os ilustradores mandem desenhos para os escritores.

IVT - Tem um conto do Dalton Trevisan e outro do Valêncio Xavier na LAMA #2. São presenças ilustres. Como eles se tornaram colaboradores?
FV - Na verdade, essa minha aproximação com o vampiro Dalton Trevisan foi uma verdadeira novela mexicana. Haha. Por acaso descobri que meu amigo que trabalha numa livraria do centro, o Ted, conhece ele. O vampiro não fala com qualquer atendente, apenas os que inspiram confiança e sabem bastante sobre literatura. Então ele aparece, frequentemente de dia e sai antes do sol se pôr. Anda até a Praça Osório e depois volta para seu castelo no Alto da XV. Existe um limite territorial.
Cheguei a suspeitar até que o Ted pudesse ser esquizofrênico. De repente imaginava o vampiro, ou achava que qualquer senhor era o Dalton. Vai saber. Também suspeitei que eu fosse esquizofrênico e imaginasse o Ted. Hahaha
No começo custei a acreditar que fosse verdade. Aliás, até agora ainda desconfio. Hehe. Bem, o fato foi que um dia, sabendo da aproximação do vampiro no meu amigo Ted da livraria Curitiba, deixei uma LAMA #1 para ele entregar. Junto, uma cartinha escrita à mão, bem ríspida, onde eu disse que gostaria de um conto dele na edição #2 (O vampiro odeia puxa-saquismo e firulas). Uma semana depois, o Ted me contou que ele adorou a revista e aceitou na hora. Falou “Muito bonita a revista!” “Pode dizer pro guri que permito publicar qualquer conto dos meus livros. Só não posso dar conto inédito, porque estou preparando dois livros novos”.
Bem, foi o que consegui. Então resolvi escrever para a Record para me certificar de que poderia usar mesmo o conto dele na revista. Fui especialmente respondido pela editora-chefe, que confirmou e agilizou tudo para mim. Foi incrível!
O conto que eu e meus comparsas editoriais escolhemos em reunião tradicional na gruta dos cafés fumegigantes foi o “Escroto e Bandalho”, do livro “O Maníaco do Olho Verde”, publicado pela Record em 2008. Era o conto que mais combinava com o caráter pulp da revista, por se passar quase todo numa delegacia bem fuleira curitibana.
O conto do Valêncio conseguimos com a sua filha Ana Niculitcheff, que é minha super amiga. Ela encontrou um conto inédito e que segundo ela tinha a cara da LAMA. O conto se chama A Morte Lucrativa, e nunca havia sido publicado. Como os contos do Valêncio sempre foram acompanhados de ilustrações geniais, eu resolvi enviar para que o talentosíssimo André Ducci, artista curitibano, o fizesse. E realmente ficou demais!

IVT - E as fotonovelas, como são produzidas?
FV - No começo fazíamos tudo em estúdio, sem cenário. Eu acrescentava as paisagens depois, no Photoshop. A partir da terceira, A Infiel, comecei a experimentar produções externas e passaram a trabalhar comigo diretor de fotografia, produtoras, maquiadoras. Produzir uma fotonovela é como fazer um filme. A mesma estrutura. Aluguel de equipamentos, contrato com atores, locações, etc. Desta forma fica muito mais convincente e bonito. Com o tempo afinamos nosso ideal estético pela iluminação noir. Criamos um visual ideal.
IVT - As colaborações para a LAMA vêm de todo o Brasil, mas a sede da editora fica no edifício Tijucas. O prédio é um microuniverso dentro de Curitiba e a gente sempre ouve as misteriosas histórias do Tijucas. De que forma esse ambiente influencia o trabalho de vocês?
FV - Eu sempre digo que me mudei de cidade desde que criei o escritório no edifício Tijucas. Por pura coincidência, descobri que Tijucas significa em tupi-guarani lodo, pântano ou lama. Não é incrível? Viemos para o lugar certo sem saber! Trabalhando aqui, transito por uma quantidade infinita de criaturas e fantasmas. Situações fantásticas ocorrem quando se erra o andar do elevador ou quando é preciso acessar o corredor de escadas infinitas sobrepostas. Há uma fazenda com vaquinhas, bois e sede campestre num dos andares. Noutro, neva. Desço os elevadores-cápsulas com as antenas e olhos fotográficos ligados o tempo todo. Certamente é o prédio mais pulp da cidade. Meus detetives passaram a fundar escritórios aqui também. Cruzo por eles o tempo todo. É preciso cuidar para não ficar preso num dos andares e dele nunca mais sair, mesmo usando o elevador.
Além disso, este edifício que é estruturado por pilares e vigas feitas de pano de alfaiates, também é alicerçado pela fumaça dos cafés centrais. E eu não vivo sem os cafés do centro. Têm o café da boca, Lucca, Barbavento… Vagar por estes cafés também é escrever histórias.
IVT – Pra finalizar, qual a importância da ficção e da fantasia na vida real?
DG - Vou responder essa questão genericamente, porque apenas parte do que publicamos é ficção. Posso afirmar que a criatividade é a ferramenta mais poderosa da mente humana, sem ela ainda estaríamos na idade da pedra. Por sua vez, a ficção pode ser considerada a expressão mais livre dessa criatividade. Na ficção não existem barreiras, nem preconceitos. Além disso, existem muitos níveis de ficção e se pararmos para analisar, pouco da literatura pode-se excluir 100% do campo da invenção. De Machado de Assis a Júlio Verne. Aprofundando mais a questão, pode-se dizer que a cultura ocidental tem seus alicerces na ficção, com a mitologia greco-romana e nórdica, as tradições medievais e dos nativos americanos. De fato, entre ficção e realidade existe uma tênue fronteira, regida pela nossa mente, pelo que aceitamos como verdade. Assim sendo, a ficção não apenas é importante, mas tem sido crucial para a humanidade.
FV - A história do mundo foi dita ou registrada pelo homem. O mundo real não existe. Nossa pele é furada e não é possível definir uma única partícula indivisível. Somos criaturas em falta, sem respostas. Nunca saberemos de onde viemos exatamente, assim como não há explicação possível para a ideia do infinito. O que chega até nós é a história da história da história. Somos o que alguma pessoa disse ou escreveu sobre nós. No fundo tudo é ficção; linguagem. Não existe realidade. Tudo é ficção e fantasia. Nossos rostos são máscaras de cera que derretem o tempo todo. E por trás das máscaras, outras máscaras que derretem e derretem e derretem…

por Thaisa Carolina
foto Marco Novack/Divulgação
Publicações veiculadas em papel de pior qualidade e, por isso, muito baratas, as pulp fictions surgiram nos Estados Unidos por volta de 1920. Suas histórias costumam ser de literatura fantástica, horror e mistério. Pulp, em inglês quer dizer polpa. Pois bem, a matéria-prima para o tipo de papel destas revistas é a polpa de árvore. O conceito também chegou por aqui. Além da gaúcha Ficção de Polpa, temos a revista curitibana Lama. E é ela que vai fazer você vencer o frio congelante de Curitiba e se aquecer com café, chá, vinho ou sopa no Quintana Café nesta quarta-feira (15/06), às 19h, no lançamento de sua segunda edição.

A publicação reúne contos de Dalton trevisan (”Escroto e Bandalho”) e Valêncio Xavier (”A morte lucrativa”), ilustrados por A. B. Ducci e Foca; uma fotonovela de Fabiano Vianna e histórias de Luiz Felipe Leprevost, André de Leones, Índigo, Ana Paula Maia, Assionara Souza, entre outros colaboradores. Após o lançamento, a Lama pode ser encontrada na Galeria Lúdica (Curitiba), Fnac e Livraria Cultura (São Paulo), ao preço de R$12.
Se você encontrar a edição impressa da Inventa no Quintana Café, pode levar pra casa, é grátis!
Serviço:
Lançamento Revista Lama #2
Dia 15/06 - quarta-feira
A partir das 19 h
Quintana Café - Av. Batel, 1440 - Batel - Curitiba/PR
Mais informações: (41) 3078-6044 / (41) 3078.8944