LAMA e LODO: o submundo vem à tona

Na Boca Maldita, coração da capital paranaense, está o Edifício Tijucas, um dos mais tradicionais e movimentados da cidade. Entre residências e estabelecimentos comerciais, o prédio abriga histórias presentes na memória de seus moradores mais antigos e na de todos os curitibanos que por ali passam diariamente. Quem, afinal, nunca ouviu falar do fantasma da mulher de vermelho que transita pelos corredores do local assustando a quem ousar cruzar seu caminho? Nossos entrevistados de hoje habitam o Tijucas e, pela conversa que segue, descobrimos que não poderiam estar em lugar melhor.
Fabiano Vianna e Daniel Gonçalves são os criadores da revista LAMA e os responsáveis pela republicação do zine LODO. A primeira nasceu como uma homenagem ao segundo, que na década de 50 era produzido pelo escritor Florestano Boaventura. Além dos nomes, a LAMA e a LODO tem em comum o pulp, gênero de horror, suspense e fantasia que permeia todas as histórias contadas em suas páginas. Páginas que, aliás, contam com colaborações de Dalton Trevisan e Valêncio Xavier, o vampiro e o Frankenstein de Curitiba, respectivamente. E é na linha tênue que separa ficção e realidade que nosso bate papo com os criadores da LAMA e do LODO se dá. Cuidado onde pisa:
INVENTA - Como nasceu a ideia da LAMA?
FABIANO VIANNA - Primeiramente o projeto era de ser uma revista apenas de fotonovela. Porque eu trabalho com fotonovelas desde 2006 no site Crepúsculo. O que não supria minha necessidade carnal de ver algo em formato impresso. Sempre fui um colecionador de livros e revistas e cultivo até hoje o prazer de ler literatura em formato de livro impresso. O prazer tátil de um livro. Mas quando eu, Daniel Gonçalves, Luiz Felipe Leprevost e Milena Buzzetti começamos a reunir material e pesquisar gráficas, formatos etc., pensei que poderia aproveitar e convidar amigos escritores que eu conhecia para participar. E então comecei a receber contos ótimos de pessoas como Ana Paula Maia, Luiz Felipe Leprevost, Martha Argel, Daniel Gonçalves, Otávio Linhares, Giulia Moon, Assionara Souza, Gisele Pacola, Vanessa Rodrigues e Eduardo Capistrano. Juntaram-se a eles, Rodriane DL, Simone Campos, Diego Gianni, Índigo, Estus Daheri e Emanuel Marques (escritor português). Pessoas que eu já admirava o trabalho. A maioria deles já caminhava pelas obscuras trilhas do pulp. Então, de revista de fotonovela, a LAMA foi transformando-se em uma revista com uma abrangência maior de temas como eram as revistas pulp dos anos 30 e 40. Este “guarda-chuva” temático composto por ficção científica, horror, suspense e fantasia.
Outra missão da LAMA é revelar escritores novos que andam produzindo literatura de primeiro mundo. Queremos consolidar os gêneros policiais, terror, suspense, ficção científica e fantasia no Brasil. Isso não é coisa só de gringo mais.
IVT – E da LODO?
FV - A LODO na verdade é uma revista antiga, da década de 50, que nos inspirou a criar a LAMA. Publicada pelo Florestano Boaventura, escritor que mora no bairro do Uberaba, em Curitiba. Ele publicava estas revistinhas, formato cordel, desde 1948, com histórias pulp, de horror e fantásticas. Mas por algum motivo parou de fazê-las na década de 70. Muita gente nunca ouviu falar. Resolvemos então prestar uma homenagem criando a LAMA. Inclusive o nome tem a ver, e até o número de letras. Daí quando ficou sabendo da LAMA, Florestano entrou em contato conosco e disse que se quiséssemos, poderíamos republicar algum material das LODOs antigas e nos cedeu contos e revistinhas. Propusemos a ele então de fazermos um novo design e novas ilustrações e lançar a partir do número que ele havia parado, número 127, junto com a LAMA #2. E ele topou. Daí o Daniel Gonçalves ilustrou e diagramou as histórias que reeditamos nesta LODO nº 127. O nosso parceiro lamacento Otávio Linhares também teve um papel importantíssimo neste processo, porque foi ele que primeiramente teve contato com o Florestano e passou também a escrever novas histórias para publicarmos na edição.

IVT - A linha editorial de vocês é a literatura pulp, um gênero praticamente desaparecido e sempre desvalorizado no Brasil. Qual a importância que vocês veem em revivê-lo?
DANIEL GONÇALVES - Reviver a linguagem pulp, é resgatar o espírito de uma literatura livre, despretensiosa e pujante, além de reverenciar verdadeiros gênios da literatura que fizeram parte desse contexto, ou que foram fortemente influenciados pelas revistas pulp. Tudo isso, sem mencionar a fantástica estética vintage, que faz da linguagem pulp uma referência igualmente forte dentro das artes visuais.
FV - Na verdade, acho que o pulp continua vivíssimo, está melhor do que nunca. O que aconteceu foi que as histórias deste gênero, antes publicadas em revistas de papel feito da polpa, migraram para os livros, quadrinhos e depois para o cinema. Tantas histórias pulp antigas e quadrinhos atuais transformados em filmes são a prova que o pulp está mais vivo do que nunca.
IVT - No editorial da Lodo #127 o Daniel Gonçalves conta como encontrou as publicações do Florestano Boaventura escondidas, esquecidas nas prateleiras da Biblioteca Pública. Vocês acreditam que o pulp, por seu caráter popular, seja tão efêmero quanto o nascimento e a substituição de uma geração por outra?
DG - A literatura pulp pode ser considerada potencialmente efêmera. Todavia, esse é um conceito bastante relativo. A partir do momento que as histórias de um livreto criam vida no consciente de um leitor e, de alguma forma, afetam sua percepção de mundo, então para essa pessoa o pulp deixou de ser efêmero.
IVT - E sobre o processo de produção das revistas… Há colaboradores fixos? Quais os critérios para a seleção dos textos e das ilustrações? O escritor e o ilustrador dialogam entre si para a criação?
FV - Alguns colaboradores são fixos, porque fazem parte do projeto desde o início como Luiz Felipe Leprevost e Daniel Gonçalves. Além disso, nós três formamos um conselho editorial para organizar a coisa. Reunimos-nos para ler os contos que os escritores enviam, bem como para analisar as ilustrações, mais tarde, das histórias selecionadas. Nossas sessões de leitura acontecem na Confeitaria das Famílias – habitat de samambaias-polvo pré-históricas e detetives de café centrais. É lá que lemos um para os outros as histórias e selecionamos o que entra na próxima edição. Sempre devidamente acompanhados de “fumegigantes” cafés e guloseimas de outrora-familiares maravilhosas.
Procuro colocar sempre os ilustradores em contato com os escritores, encaminhando os emails de um para o outro. Em algumas vezes eles dialogam, de vez em quando, os escritores sugerem imagens. Na próxima edição da LAMA quero testar inverter o processo, pedir que os ilustradores mandem desenhos para os escritores.

IVT - Tem um conto do Dalton Trevisan e outro do Valêncio Xavier na LAMA #2. São presenças ilustres. Como eles se tornaram colaboradores?
FV - Na verdade, essa minha aproximação com o vampiro Dalton Trevisan foi uma verdadeira novela mexicana. Haha. Por acaso descobri que meu amigo que trabalha numa livraria do centro, o Ted, conhece ele. O vampiro não fala com qualquer atendente, apenas os que inspiram confiança e sabem bastante sobre literatura. Então ele aparece, frequentemente de dia e sai antes do sol se pôr. Anda até a Praça Osório e depois volta para seu castelo no Alto da XV. Existe um limite territorial.
Cheguei a suspeitar até que o Ted pudesse ser esquizofrênico. De repente imaginava o vampiro, ou achava que qualquer senhor era o Dalton. Vai saber. Também suspeitei que eu fosse esquizofrênico e imaginasse o Ted. Hahaha
No começo custei a acreditar que fosse verdade. Aliás, até agora ainda desconfio. Hehe. Bem, o fato foi que um dia, sabendo da aproximação do vampiro no meu amigo Ted da livraria Curitiba, deixei uma LAMA #1 para ele entregar. Junto, uma cartinha escrita à mão, bem ríspida, onde eu disse que gostaria de um conto dele na edição #2 (O vampiro odeia puxa-saquismo e firulas). Uma semana depois, o Ted me contou que ele adorou a revista e aceitou na hora. Falou “Muito bonita a revista!” “Pode dizer pro guri que permito publicar qualquer conto dos meus livros. Só não posso dar conto inédito, porque estou preparando dois livros novos”.
Bem, foi o que consegui. Então resolvi escrever para a Record para me certificar de que poderia usar mesmo o conto dele na revista. Fui especialmente respondido pela editora-chefe, que confirmou e agilizou tudo para mim. Foi incrível!
O conto que eu e meus comparsas editoriais escolhemos em reunião tradicional na gruta dos cafés fumegigantes foi o “Escroto e Bandalho”, do livro “O Maníaco do Olho Verde”, publicado pela Record em 2008. Era o conto que mais combinava com o caráter pulp da revista, por se passar quase todo numa delegacia bem fuleira curitibana.
O conto do Valêncio conseguimos com a sua filha Ana Niculitcheff, que é minha super amiga. Ela encontrou um conto inédito e que segundo ela tinha a cara da LAMA. O conto se chama A Morte Lucrativa, e nunca havia sido publicado. Como os contos do Valêncio sempre foram acompanhados de ilustrações geniais, eu resolvi enviar para que o talentosíssimo André Ducci, artista curitibano, o fizesse. E realmente ficou demais!

IVT - E as fotonovelas, como são produzidas?
FV - No começo fazíamos tudo em estúdio, sem cenário. Eu acrescentava as paisagens depois, no Photoshop. A partir da terceira, A Infiel, comecei a experimentar produções externas e passaram a trabalhar comigo diretor de fotografia, produtoras, maquiadoras. Produzir uma fotonovela é como fazer um filme. A mesma estrutura. Aluguel de equipamentos, contrato com atores, locações, etc. Desta forma fica muito mais convincente e bonito. Com o tempo afinamos nosso ideal estético pela iluminação noir. Criamos um visual ideal.
IVT - As colaborações para a LAMA vêm de todo o Brasil, mas a sede da editora fica no edifício Tijucas. O prédio é um microuniverso dentro de Curitiba e a gente sempre ouve as misteriosas histórias do Tijucas. De que forma esse ambiente influencia o trabalho de vocês?
FV - Eu sempre digo que me mudei de cidade desde que criei o escritório no edifício Tijucas. Por pura coincidência, descobri que Tijucas significa em tupi-guarani lodo, pântano ou lama. Não é incrível? Viemos para o lugar certo sem saber! Trabalhando aqui, transito por uma quantidade infinita de criaturas e fantasmas. Situações fantásticas ocorrem quando se erra o andar do elevador ou quando é preciso acessar o corredor de escadas infinitas sobrepostas. Há uma fazenda com vaquinhas, bois e sede campestre num dos andares. Noutro, neva. Desço os elevadores-cápsulas com as antenas e olhos fotográficos ligados o tempo todo. Certamente é o prédio mais pulp da cidade. Meus detetives passaram a fundar escritórios aqui também. Cruzo por eles o tempo todo. É preciso cuidar para não ficar preso num dos andares e dele nunca mais sair, mesmo usando o elevador.
Além disso, este edifício que é estruturado por pilares e vigas feitas de pano de alfaiates, também é alicerçado pela fumaça dos cafés centrais. E eu não vivo sem os cafés do centro. Têm o café da boca, Lucca, Barbavento… Vagar por estes cafés também é escrever histórias.
IVT – Pra finalizar, qual a importância da ficção e da fantasia na vida real?
DG - Vou responder essa questão genericamente, porque apenas parte do que publicamos é ficção. Posso afirmar que a criatividade é a ferramenta mais poderosa da mente humana, sem ela ainda estaríamos na idade da pedra. Por sua vez, a ficção pode ser considerada a expressão mais livre dessa criatividade. Na ficção não existem barreiras, nem preconceitos. Além disso, existem muitos níveis de ficção e se pararmos para analisar, pouco da literatura pode-se excluir 100% do campo da invenção. De Machado de Assis a Júlio Verne. Aprofundando mais a questão, pode-se dizer que a cultura ocidental tem seus alicerces na ficção, com a mitologia greco-romana e nórdica, as tradições medievais e dos nativos americanos. De fato, entre ficção e realidade existe uma tênue fronteira, regida pela nossa mente, pelo que aceitamos como verdade. Assim sendo, a ficção não apenas é importante, mas tem sido crucial para a humanidade.
FV - A história do mundo foi dita ou registrada pelo homem. O mundo real não existe. Nossa pele é furada e não é possível definir uma única partícula indivisível. Somos criaturas em falta, sem respostas. Nunca saberemos de onde viemos exatamente, assim como não há explicação possível para a ideia do infinito. O que chega até nós é a história da história da história. Somos o que alguma pessoa disse ou escreveu sobre nós. No fundo tudo é ficção; linguagem. Não existe realidade. Tudo é ficção e fantasia. Nossos rostos são máscaras de cera que derretem o tempo todo. E por trás das máscaras, outras máscaras que derretem e derretem e derretem…

